sábado, 26 de abril de 2014

A obra do meu pai - Paulo Sant’Ana (adaptado), Zero Hora, 20/01/2012






Imagem: Sopa de ideias

Vou abordar este tema com alguns tons desagradáveis pela única intenção de inspirar os pais a serem cada vez mais amorosos com seus filhos. E também porque esta abordagem vai me servir de útil autoterapia.

Ocorre que, jantando com um amigo na semana passada, ele insistiu em relatar as violências de seu pai, na época em que meu amigo tinha entre 10 e 15 anos. Um dia, com 11 anos, achou uma faca na rua. Levou-a para casa e a pôs na gaveta do seu pixixê. Seu pai achou a faca e interrogou-o. Ele disse ao pai que tinha achado a faca nas imediações de uma praça.

O pai não se conformou e passou a afirmar que o filho tinha furtado a faca. Submeteu-o a um interrogatório tão severo, que meu amigo, cansado da tortura das perguntas e da pressão psicológica irresistível que o pai exercia, resolveu mentir, confessando que tinha furtado a faca. O pai, então, surrou-o impiedosamente, surrou-o com um porrete, deixou lanhos e hematomas em seus braços e pernas. Era de se ver o olhar de meu amigo contando-me essa surra que levou de seu pai, apenas uma entre tantas outras que sofreu durante toda a infância.

Eu ia ouvindo meu amigo e ia configurando a minha mesma dor. Meu pai, quando eu era criança, só parava de desferir fortes bofetadas em meu rosto quando meu nariz sangrava. Eu amava meu pai, eu ainda amo meu pai, mas ele foi mau e sádico comigo. E, a exemplo do pai do meu amigo, surrava-me na maioria das vezes injustamente. Ele me surrava por prazer de me espancar. Ele se realizava tendo-me, menininho, à mercê de sua tara sádica. E eu morava num quarto dos fundos e ali vivia todos os dias o papel de um detento que invariavelmente era espancado pelo seu carcereiro. Todos os dias. Isso é o que meu pai foi para mim na minha infância: meu carcereiro implacável.

Foi tão grande o trauma que meu pai me causou com essas tremendas agressões que, por vezes, já agora na minha idade, talvez no fim da minha vida, por vezes sonho com meu pai me espancando ou então com cenas do meu medo, à espera de que dali a pouco meu pai chegasse e desse início àquelas sessões intermináveis de tortura.

O que meu pai conseguiu com sua sanha, tenho bem nítido: tornou-me inseguro e pessimista, dano monumental que se encravou na minha conduta em toda a minha vida. Não tenho como absolvê-lo, embora estranhamente eu ainda o ame. Ele foi meu carrasco e eu fui sua vítima e um herói, porque consegui ainda reunir forças, depois que ele me estraçalhou, para enfrentar as duras lidas da vida.

Estou escrevendo sobre uma grave queixa minha. Apenas pela esperança de que isso possa evitar que pais repitam tal massacre com seus filhos. E o interessante é que meu pai nos contava que meu avô, o pai dele, chamava a ele e seus irmãos e dizia para que fossem buscar o relho dependurado na parede da sala para serem a seguir espancados. Deve ser grande a dor e o medo de um filho que vai noutra peça da casa buscar o relho e alcançá-lo para o pai espancá-lo. E interessante também é que talvez por isso nunca, em toda a minha vida, espanquei ou sequer dei um tapa num dos meus três filhos.