terça-feira, 19 de novembro de 2013

Cabeça de bode - Ane Braga



O grande chapéu de palha era apenas mais um a sofrer sob o calor escaldante.
A terra esturricada gemia de dor a cada golpe inútil da enxada velha.
Suor salgado descia de sua testa enrugada, molhando os sulcos da face marcada pela dor e pelo tempo, embora esse último não fosse muito.

Olhar para a terra que golpeava era como olhar-se num espelho.
As mesmas marcas da terra repetiam-se em seu rosto.
Olhou para o chão. Já estava dentro de um buraco. Mais fácil seria enterrar-se de uma vez nele, pois água alguma encontraria ali. Não – pensou – tinha mulher e filhos para cuidar.

Continuou cavando.
Desde que valentões engravatados tomaram-lhe a casinha da Caixa, expulsando-o e a sua família de Triunfo, sua vida despencara.

Não havia mais a comidinha modesta de todo dia, nem seu emprego como guia dos turistas de outras cidades e até de outros países.
Gostava especialmente do Açude João Barbosa, um oásis bem no meio do sertão. Tanta vida, tanta planta, tanta gente. Mas depois dos valentões fora obrigado a partir com a família para aquele lugar árido, longe de tudo, perto de nada.

Maria, sua esposa, vivia dizendo para ter esperança. Que as coisas um dia iriam melhorar.
Esperança... Palavra bonita, mas vazia de significado, principalmente quando se estava literalmente num buraco.

Enxugou o suor da testa com o braço. Não havia água. Não havia esperança. Só desespero.
Tomaram-lhe a casinha regiamente paga todo mês para dá-la a não-sei-quem e a única lembrança que tinha era o contrato da casinha.
Ainda procurou ajuda. Foi à polícia. Quase foi morto. Deixou para lá.
Olhou para o buraco que cavava. Nada de água. Melhor seria voltar para casa.
***
Chegou cabisbaixo com a enxada no ombro. Olhou para a moradia que dividia com a família.
Sua criança menor cambaleou de dentro da casa de barro e telhado de palha.
A barriga estufada só poderia ser de verme, pois de comida certamente não seria.
Passou a mão enrugada na cabeça do menino. Entrou.
No cômodo que era sala, quarto e cozinha, sua filha maior ajudava Maria com a comida.
Banheiro só do lado de fora, ao relento. Sentiu o aroma do maxixe e do restante do feijão-de-corda. O estômago roncou alto.
Maria, como sempre, estava sorrindo e contando algum “causo” engraçado.
O daquela vez era sobre o Vaqueiro Misterioso.
Todo sertanejo já ouviu falar do sujeito com roupas velhas de tanto uso, chapéu cambaio sobre o rosto curtido de sol forte e da égua magra, cansada, sem esperança e sem fôlego de tanta andança por essas paragens de troncos finos e secos das árvores espinhentas que se curvam diante dos valentes mandacarus.

Nesse cenário de poeira e pó de arder os olhos, surgia de repente a figura do Vaqueiro montada em sua égua magra, vindo ao longe no meio da poeira para a danação do sertanejo.
Qualquer cabra macho sentia a espinha gelada de terror diante de visão tão apocalítica.

Quando o vaqueiro se aproximava de um povoado, sua figura transmutava-se.
De esquálido cavaleiro eis que surgia diante de olhos estupefatos em homem forte, bem apessoado, com gestos e cavalgar firmes.

Sua égua, antes magra e cansada, de repente era o mais forte e indomado corisco.

Mal chegava, arranjava trabalho nas fazendas dos doutores da região.
Domava cavalo, égua , potro. Se deixassem até boi bravio colocava debaixo da bota.
Na época de vender o gado, era ele que com seu canto triste conduzia o rebanho sem perder nenhuma cabeça.

Na volta, para festejar o sucesso da empreitada, a vaquejada era para ele o grande momento.

Laçava bezerro em poucos segundos e não tinha donzela que não quisesse entregar a ele muito mais que a fita amarela de vencedor.

Ele não tomava caso. Guardava um pouco da carne seca no gibão de couro, um pouco de água na bolsa de bucho de bode e partia. Se perguntavam-lhe o nome, não respondia.

Seguia e sumia de repente do mesmo modo que aparecia.
Seguia como o Vaqueiro Misterioso que era. Amedrontador e surpreendente. Trazia medo na chegada e deixava saudade quando partia.

Colocou a enxada atrás da porta. Maria sorriu com seu sorriso de poucos dentes.Não imaginava o que a fazia estar sempre sorrindo. Não sabia se era para não magoar ninguém ou para não chorar séria.

Maria terminou o “causo”.
A filha perguntou se realmente ninguém sabia o nome do vaqueiro.

—Ninguém – respondeu Maria.
Também ele não tinha um nome.
Era apenas José não sei de quê. Nunca soube.
Seu pai, nunca conheceu. Diziam que era um vaqueiro temporário que um dia apareceu pela fazenda onde sua mãe era ama de leite do filho do patrão. Outros ainda diziam que o próprio patrão era seu pai.

Olhou ao redor do pequeno cômodo que dividia com a mulher, os dois filhos e o bode que pegara perdido no caminho durante a fuga com a família.
Assustou-se:
— Maria, cadê o bode?
— Saiu por ai enquanto passava uma vassoura nessa poeira. O menino quase não pode respirar de tanto pó.
—Quem saiu o bode ou o menino?
—O bode, homem de Deus! Já não disse?

José coçou o queixo. Sabia que aquela seria a última refeição do dia. Iria procurar o bode e prepará-lo para uma longa retirada. Voltaria para Triunfo, perto do Açude.
Passaria ao largo dos valentões e se camuflaria na cidade. Olhou para Maria e para suas duas crianças. A viagem seria longa e precisava de comida. Encontraria o bode.
Pegou a corda pendurada atrás da porta de entrada. Única porta da pequena casa.Maria colocava a comida nas cuias de barro.
—Vou ali e já volto – disse a esposa.
—Vai ali onde, homem? Não vê que o di cumê já está pronto?
José respondeu algo incompreensível. Pegou a peixeira e saiu da pequena casa.
A mulher deu de ombros e começou a comer. Contava mais um de seus inúmeros causos para a filha mais velha. O menino pequeno, sentado no chão de terra, pegava pequenos bocados de andu com farinha e levava a boquinha com sofridão.
A filha mais velha cerrou o cenho imaginando se um dia também estaria ela contando causos para seus filhos enquanto pensava que não haria mais comida para o dia seguinte.
Perdeu o apetite. Certamente não viveria tanto.
De repente a mãe dá um grito: —O bode! Levantou-se correndo para espanto das crianças. —Valha-me Deus, seu pai vai acabar com o bode!

Sem entender nada, a filha mais velha pegou o irmão no colo, sequer dando conta que ele ainda estava com fome. De qualquer forma isso não importava. Não havia mais comida na pequena cuia.

Saiu em disparada atrás da mãe.
O calor escaldante deixou-a com a garganta seca e os olhos ardendo. A mãe não parava de correr. Seu irmão chorava.

Dez angustiantes minutos de suplício depois, escutou um bodejar atrás da cajazeira seca.

Seu pai estava abaixado olhando para o chão. A peixeira na mão.
Sua mãe chegou até seu pai. Deu um grito.
Pouco depois, chegou também a filha.
A seus pés, muito sangue. O bode estava morto.
Alguma coisa naquele bode parecia estranha.
Franziu o cenho. Aquele não era o bode de sua família.

Desolada percebeu um som estranho vindo do bode.
Um pequeno cabritinho mamava. Não era um bode. Era uma cabra. Não estava morta, somente prostrada.

Um sorriso surgiu em seus lábios e lágrimas brilharam em seus olhos.
Teriam leite para beber.
Olhou um pouco adiante da cajazeira. Lá estava o bode da família.
Teriam carne também.

O bode estava morto.
Eles sobreviveriam.