quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O Mato - Rubem Braga



Veio o vento frio, e depois o temporal noturno, e

depois da lenta chuva que passou toda a manhã caindo

e ainda voltou algumas vezes durante o dia, a cidade

entardeceu. Então o homem esqueceu o trabalho e as

promissórias, esqueceu a condução e o telefone e o

asfalto, e saiu andando lentamente por aquele morro

coberto de um mato viçoso, perto de sua casa. O capim

cheio de água molhava seu sapato e as pernas da calça;

o mato escurecia sem vaga-lumes nem grilos.

Pôs a mão no tronco de uma árvore pequena,

sacudiu um pouco, e recebeu nos cabelos e na cara as

gotas de água como se fosse uma bênção. Ali perto

mesmo a cidade murmurava, estava com seus ruídos

vespertinos, ranger de bondes, buzinar impaciente de

carros, vozes indistintas; mas ele via apenas algumas

árvores, um canto de mato, uma pedra escura. Ali

perto, dentro de um casa fechada, um telefone batia,

silenciava, batia outra vez, interminável, paciente,

melancólico. Alguém, com certeza já sem esperança,

insistia em querer falar com alguém.

Por um instante, o homem voltou seu pensamento

para a cidade e sua vida. Aquele telefone tocando em

vão em um dos milhões de atos falhados da vida

urbana. Pensou no desgaste nervoso dessa vida, nos

desencontros, nas incertezas, no jogo de ambição e

vaidades, na procura de amor e de importância, caça ao

dinheiro e aos prazeres. Ainda bem que, de todas as

grandes cidades do mundo, o Rio é a única a permitir a

evasão fácil para o mar e a floresta. Ele estava ali num

desses limites entre a cidade dos homens e a natureza

pura; ainda pensava em seus problemas urbanos -

mas um camaleão correu de súbito, um passarinho piou

triste em algum ramo, e o homem ficou atento àquela

humilde vida animal e também à vida silenciosa e úmida

das árvores, e à pedra escura, com sua pele de musgo e

seu misterioso coração mineral.

E pouco a pouco ele foi sentindo uma paz naquele

começo de escuridão, sentiu vontade de deitar e dormir

entre a erva úmida, de se tornar um confuso ser

vegetal, num grande sossego, farto de terra e água;

ficaria verde, emitiria raízes e folhas, seu tronco escuro,

grosso, seus ramos formariam copa densa, e ele seria,

sem angústia nem amor, sem desejo nem frieza, forte,

quieto, imóvel, feliz.