sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

E então, certo dia, por acaso - Newton Braga

... e então, certo dia, por acaso,
nós nos veremos, de novo, frente a frente.
Cada qual estará algemado a outros destinos
e parecer-nos-á que andamos às tontas,
muito
tempo,
e que as estradas que julgávamos familiares e
imutáveis
eram mundos estranhos em que vivêramos
sonâmbulos.

Um pequenino detalhe qualquer, vago, impreciso
- o meu modo de olhar, teu jeito de sorrir,
um gesto, uma expressão, um desses quês
inapagáveis-
reacenderá, talvez, por um momento,
a memória de outros tempos e outros sonhos.

Sim: apenas por um momento.
Voltaremos logo ao presente, voltaremos
apressadamente a nós mesmos,
com teimosia e rancor,
com o sobressalto, o desamparo, o desespero
de quem, mesmo sabendo inútil, vão,
quer impor, com o cérebro,
o ritmo que o coração deva bater.

-E então cada qual continuará o seu caminho,
pisando firme, com decisão, obstinadamente;
-nenhum dos dois olhará para trás.