segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A amante do príncipe - Sandra Marton - Cap. III

CAPÍTULO TRÊS
Uma imensa limusine preta aguardava no meio-fio. Até aí, nenhuma surpresa, refletiu Chloe com frieza. Homens como Nick Karrier não se importavam em deixar seus empregados esperando metade da noite enquanto se divertiam. Ah, sim, ela definitivamente conhecia aquele tipo!
Homens como ele, contudo, não faziam sinal para o motorista permanecer no lugar enquanto eles próprios abriam a porta do carro. Karrier fez isso.
Mas, e daí? Ainda era arrogante o bastante para manter um homem esperando à sua disposição e...
- O vôo da sua irmã saiu na hora certa?
Chloe virou-se para Nick, pensando que ele estava falando com ela. Não. Estava se dirigindo ao motorista, conforme se afastavam da calçada.
- Na hora certinha, sr. Karrier.
- Ótimo. Imaginei isso mesmo quando vi que já estava esperando aqui.
Chloe disfarçou uma risadinha incrédula. Tudo bem. Talvez Nick não fosse tão fácil de definir como a maioria dos homens da sua classe. Isso não o tornava um bom rapaz. E quando ele lhe lançou outro daqueles sorrisos de fazer estremecer as pernas, ela soube que tinha razão. Ali estava a atuação com o objetivo de levá-la ao seu apartamento.
- Gosta de comida italiana?
- Não me diga - ela respondeu, docemente. - A sua cozinheira, por acaso, deixou um ragu fresquinho na geladeira.
- Tenho uma governanta, não uma cozinheira, e se ela me deixasse um ragu, eu não saberia o que fazer com ele.
Nick era bom em fazê-la sentir-se como uma idiota, mas aquilo não iria continuar. Era uma mulher adulta, culta e experiente. Sabia com quem lidava.
- Não estou com a mínima fome_ rebateu, mudando o tom doce para um gélido.
O suspiro dele foi profundo e, ela sabia, tão exagerado quanto sua própria resposta.  Estava faminta. Seu jantar fora uma garrafa de água e dez amêndoas. Entrou numa dieta de poucos carboidratos, desesperada por perder dois quilos. Os estilistas americanos gostavam de suas modelos magras. E quanto à comida italiana... Ela adorava! Não que Nick precisasse dessa informação.
- Para o Giovanni’s - ele instruiu o motorista, e Chloe recebeu outro sorriso. - Pode me fazer companhia enquanto como. Estou morto de fome.
- Divertiu-se tanto esta noite que nem mesmo experimentou o bufê?
- Sou esperto demais para provar qualquer coisa que não se pareça com comida de verdade. E odeio desapontá-la, mas nada nesta noite foi divertido.
Talvez o mais inteligente a se fazer fosse calar a boca e apenas sobreviver ao Giovanni’s, que certamente ficaria em um imóvel caríssimo, seria elegante, cobraria preços altos demais e teria funcionários demais.
Errada de novo. O Giovanni’s ficava no centro da cidade, na Pequena Itália, e o dono cumprimentou Nick como um velho amigo que não encontrava há tempos. Houve uma conversa agradável e a surpresa em descobrir que Karrier falava italiano. Ela também falava o idioma, claro, mas manteve a expressão impassível enquanto eram conduzidos até uma mesa à luz de velas no jardim. Sinos de vento tilintavam à brisa suave.
Nick Karrier puxou-lhe uma cadeira. Suas mãos esbarraram em seus ombros nus, ela sentiu o toque incendiar o seu sangue e se retraiu, o coração disparado. O que havia de errado com ela naquela noite?
- Ótimo lugar, não? Nem parece que estamos na cidade.
Era verdade, mas por que ela iria admitir isso? Permaneceu rígida em sua cadeira,, enquanto ele fazia o pedido. Pouco depois, havia uma garrafa de Chianti envolta em cordame, uma cesta com pães fresquinhos e uma enorme travessa de antepastos sobre a mesa.
- Tem certeza de que não vai querer nada? - Nick insistiu educadamente.
- Tenho. - Chloe mirou o relógio de pulso, depois o observou enquanto ele servia duas taças de vinho. - Eu já disse, não estou...
- Com fome. Mas pode estar com sede. - Nick bebericou o Chianti. - Delicioso. Muito diferente daquela coisaque eles serviram no evento para salvar os sei-lá-o-quê.
- Ninguém estava salvando os “sei-lá-o-quê”.
- Ninguém estava salvando nada. Só estavam fazendo algo para se sentirem bem com eles mesmos. - Ele mordeu um pedaço de pão. - Incrível. É a mulher de Giovanni que cozinha tudo.
Chloe observou enquanto ele comia o pão, comia um pouco de queijo, comia um tomate cereja. Para seu horror, ouviu o próprio estômago roncar. Nick a fitou, as sobrancelhas erguidas, e ela bufou com raiva, passou a mão em um pedaço de pão e enfiou na boca.
Giovanni se aproximou, alvoroçado, empurrando um carrinho de serviço. Chloe deu uma olhada e balançou a cabeça.
- Não - recusou. - Não posso.
O homem levou a mão ao peito.
- A signorina não quer provar a comida da minha Celeste?
- Não é isso. É que... Está bem. Mas só um pouquinho.
Chloe tinha essa intenção. Havia a sua dieta e havia a arrogância do homem que achava que podia convencê-la a aproveitar a noite.
Mas a comida estava divina. E Nick Karrier era... Bem, ele não era exatamente como ela havia imaginado. Era calmo, charmoso... E divertido. Como ela poderia não rir de suas histórias sobre outros eventos beneficentes do tipo “Salvem sei-lá-o-quê”? Ele era atencioso, também, perguntando sobre seu trabalho, rindo quando ela lhe contou da vez em que foi obrigada a cruzar uma passarela com os pés espremidos em sapatos dois números menores do que o dela.
E havia o modo como ela se sentiu quando estendeu a mão para pegar algo na mesa, ao mesmo tempo em que ele, e suas mãos acidentalmente se tocaram...
De repente, uma música preencheu o jardim. Não uma versão melosa de “O Solo Mio”, mas a voz rouca de Norah Jones cantando melancolicamente a dor de um amor perdido.
- Giovanni sabe que Norah Jones é uma de minhas cantoras favoritas - explicou Nick e, naquele momento, Chloe soube, com dolorosa certeza, que ela poderia mesmo tê-lo julgado mal. Ele se pôs de pé e estendeu a mão. - Dança comigo?
Ela sabia que a resposta certa deveria ser “não”, mas talvez não houvesse respostas certas naquela noite. Pegou a mão de Nick, foi para os seus braços e, quando ele a puxou para si, sentiu o coração perder o compasso.
Os lábios de Nick estavam sobre sua têmpora. Os dela, contra o pescoço dele.
Após um instante, estavam deslizando, não dançando. E quando Chloe ergueu a cabeça, Nicolas fez a única coisa que podia fazer.
Ele a beijou.