sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Encontro à meia-noite - Ana DePalo - Cap. II

CAPÍTULO DOIS
Ryder deu o sorriso torto que ela lembrava tão bem.
-  Faz muito tempo -  disse ele, tacitamente percebendo a surpresa e a incerteza em sua voz.
-  Por que está usando verde? -  perguntou ela abruptamente, sendo transportada para outra época e lugar.
Uma época ruim. O ensino médio. Claro que ela foi apelidada de Fab Dav porque todos na escola tinham um apelido que combinava com a personalidade - pelo menos na opinião dela. Sempre achou que possuía mais falhas do que poderia contar.
Agora, ali estava ele. Ryder McPhee, o homem que a importunou sem parar naquela época. Ele devia ter acabado de chegar à mansão da família Elliott, já que ela não o viu mais cedo. Provavelmente, devia estar vindo de alguma outra festa fantástica em Hamptons.
Ele olhou para a camisa e novamente para Chloe, levantando uma sobrancelha.
-  Algum problema com a cor verde?
-  Não! É… -  ela hesitou e depois exclamou. -  É que verde é cor de sapos! - Por ter se sentido uma idiota, tentou parecer racional. - O verde esteve fora de moda esse ano. Todas as revistas de moda disseram isso.
Ele achou aquilo engraçado e ela poderia jurar que ele leu sua mente.
-  Relaxe. Os Elliott têm descendência irlandesa, assim como eu. É uma homenagem à tradição.
Como isto foi acontecer? Chloe ficou perturbada. Ryder estava sendo bem racional enquanto ela parecia uma lunática. Pelo menos na escola ela sempre reagiu e saiu com a cabeça erguida, apesar da risada dele normalmente a seguir pelo corredor.
Ele era mais adiantado do que ela na escola em Westchester, mas isto não impediu que os dois se cruzassem muitas vezes nos corredores e nas duas matérias eletivas que fizeram juntos.
Embora ele tenha tido alguns bons amigos, ela sempre o considerou um lobo solitário. Chloe somente prestou alguma atenção em Ryder na sua formatura, quando foi chamado de “brilhante” pela Sra. McPhee ao contar que Ryder iria estudar na prestigiada Wharton School of Business, da Universidade da Pensilvânia.
Ela o observou. Ele sempre foi alto, mas agora era impossível ignorar seus músculos bem desenvolvidos embaixo da camisa aberta e das calças pretas. Ele havia desenvolvido bíceps impressionantes para combinar com seu cérebro também impressionante. Chloe sentiu-se pequena e feminina perto dele.
Um arrepio involuntário de consciência passou por ela.
Desconcertada e querendo mudar de assunto, perguntou:
-  O que você está fazendo aqui?
Mais uma vez recebeu o olhar torto que a fazia lembrar-se do Ryder de antigamente.
-  Cullen Elliot e eu no conhecemos através de parceiros de negócios, por isso recebi um convite para a festa desta noite. - O olhar provocador estava de volta. - E quanto a você?
-  Eu trabalho na EPH. -  respondeu rapidamente.
-  Claro. -  disse ele. -  Eu me lembro da minha mãe mencionando que você é secretária na revista Charisma.
-  Sou a assistente executiva da editora-chefe. -  corrigiu em tom de defesa. -  Eu gosto do meu trabalho. -  Ela não era nada mais que uma secretária glorificada, apesar do pomposo título do cargo que ocupa, mas Ryder deixou-a contrariada.
-  Não me diga. -  falou casualmente. -  Fico feliz em saber.
-  Você fica surpreso quando alguém é bem sucedido? -  replicou.
A malícia brilhou em seus olhos.
Ela percebeu que ele a espiava, o que fazia sua pressão subir. Ela sabia o que ele via. Era esbelta, mas nada que a qualificasse como alguém de parar o trânsito. Seu cabelo castanho escuro era longo e reto e se alguém perguntasse, ela diria que seus olhos azuis eram sua melhor característica.
Ele voltou a olhá-la nos olhos.
-  Não, não fico surpreso. -  murmurou. -  Também não estou decepcionado.
Ela sentiu uma onda de calor. Estaria Ryder flertando com ela?
Ele estava flertando com ela.
Ryder percebeu que Chloe arregalou seus grandes olhos azuis e se deu conta de que a havia deixado perturbada. Ótimo.
Afinal, ele estava lá por causa dela, e se não pudesse fazer nada melhor do que seguir com este plano ridículo prestes a dar resultado, merecia ser posto para fora com um chute no traseiro.
Não que estivesse acostumado a isso. Ele soube aproveitar o boom da Internet - começando um lucrativo negócio com um colega de faculdade - e sua conta bancária era a prova de sua perspicácia nos negócios e sucesso financeiro. Quando pensou nisso, achou divertido imaginar que hoje era considerado um bom partido, apesar de não falar muito sobre os detalhes da sua vida profissional.
Mesmo assim, observando Chloe esta noite, foi transportado de volta aos tempos do colégio e a vontade de seduzi-la era irresistível.
Chloe. Ele lembrou que ela constantemente precisava explicar às pessoas que seu nome era Chloe - a pronúncia era clo-EE - sem acento agudo ou trema no “e”. Ryder então percebeu que não havia nada em Chloe que precisasse ser acentuado.
Na escola, muitos rapazes se interessaram por ela. Ela foi a Shannen Doherty, de Barrados no Baile, mas sem a postura - apesar de que, hoje em dia, seria comparada a Jennifer Garner, de Alias.
Ele sabia bem. Ouviu os cochichos no vestiário. Na época, a competição entre seus colegas o deixou irritado, sendo assim, usou o único método infalível existente para chamar a atenção de Chloe: provocá-la.
Porém, graças às suas cantadas, as coisas de início não seguiram como o planejado, mas já estavam de volta ao curso. Ela estava abalada.
De algum lugar, Ryder ouviu o som de uma televisão. Olhou em volta e conseguiu ver uma tela da televisão. O apresentador transmitia ao vivo de Times Square, em Manhattan, onde uma multidão estava reunida para saudar o Ano Novo.
-  Um minuto para a meia-noite! -  alguém na sala anunciou.
Ryder voltou a olhar Chloe, que olhava em volta distraída.
-  Você veio com alguém?
Ela olhou para ele, confusa.
-  O quê? Não, não.
Seus olhos verdes eram tão lindos…
-  Parece que terá que ser eu.
-  Terá que ser você o quê?
Ele deu um exagerado suspiro de conformação.
-  A beijá-la à meia-noite. Acho que terei que fazer o trabalho sujo.
Pela televisão, ouviu-se a multidão começando a contagem regressiva para a meia-noite.
-  Dez. Nove...