terça-feira, 1 de novembro de 2011

Baile de Caça - Capítulo 1 - Pam Croks

CAPÍTULO UM

— Leia e chore, querida. – A vidente deslizou um dedo por debaixo de seu enorme turbante e coçou a testa. – Você tirou o Valete de Copas, a Dama de Espadas e o Valete de Espadas. E quando eu quis ter certeza, você puxou a carta dos Amantes. Quanto mais clara você quer que seja a sua leitura?
— Muito mais.
Chloe Leclaire encarava a falsa vidente – na verdade Glenda, uma empregada de sua firma de advocacia – iluminada por uma luz oscilante de vela prateada e uma mesa forrada de seda vermelha e cartas de tarô.
— Fui eleita a aluna mais enfadonha na fraternidade, ainda na faculdade, e durante dois anos seguidos. Posso dizer honestamente que essa história de triângulo amoroso não faz sentido nenhum.
Naquela noite Chloe comparecera ao Silk Masquerade, um baile beneficente da Heart Society, para dar apoio ao seu maior cliente e para honrar um pacto entre amigas. Duas delas, Lexi e Amanda, estavam disfarçadas de Cleópatra e Maria Antonieta e se deliciavam com a previsão escandalosamente romântica da falsa vidente.
— Até agora não vi nenhum solteiro que valesse minimamente a pena, meninas – disse  Chloe.  Deus  sabia  que  estava  procurando  na  multidão  por  Eric  Matteo,  um  belo empresário  e  o  pretendente  que  frequentava  seus  sonhos  nos  últimos  tempos,  mas  não conseguia encontrá-lo na resplandecente multidão.
— Não acho mesmo que vou acabar como a rainha hoje, muito menos vou precisar escolher entre dois impetuosos cavaleiros.
Amanda inclinou-se para cutucar o ombro do vestido vermelho rendado de Chloe:
— E não é uma agradável surpresa que você tenha vindo fantasiada de Dama de Copas hoje? Talvez Glenda esteja certa.
— Deixe-me ver se entendi. – Cleópatra-Lexi inclinou-se sobre a avantajada bola de cristal incrustada na mesa e apontou o Valete de Copas com um dedo longo:
— Esse aqui é um romântico idealista. E deslizou os dedos pela mesa até o Valete de Espadas.
Glenda suspirou:
— Você está levando a coisa um pouco literalmente demais, mas sim, acho que sim. Chloe levantou-se  da mesa, depois de ter ouvido falar de romance e amor naquela noite o suficiente por dez encarnações.
— Tudo bem, meninas. Esse falatório sobre romance está me dando dor de cabeça. Uma ex-princesa debutante sem graça como eu jamais será disputada por dois homens hoje à noite, nem que a vaca tussa. Proponho começarmos a trabalhar no pacto e nos contentarmos com um homem para cada uma essa noite.
Maria Antonieta levantou-se:
— É  o  seu  25º  aniversário, Chloe. Você  manda  hoje. –  Estendeu  seu  mindinho apontando para suas amigas. – Eu ainda estou dentro, se vocês estiverem...
Cleópatra  deu  um  sorriso,  seus  olhos,  sombreados  de  maquiagem,  acesos  de travessura:
— Você está brincando? Todas as vezes em que fizermos um pacto para sermos selvagens e ousadas, serei a primeira na fila para enfrentar o desafio.
Cruzou o dedo mindinho com o de Amanda e,então, virou-se com expectativa para Chloe:
— Vamos lá, Escudeira Leclaire. Cavalgue nessa promessa.
Chloe relembrou durante o almoço o pacto regado a margaritas das três: prometeram que cada uma amarraria um homem durante o Silk Masquerade, aproveitando o anonimato para viverem perigosamente, flertar imprudentemente e fazer propostas ousadas Normalmente, Chloe jamais seria tão corajosa fora de seu escritório de advocacia ou
da sala do tribunal. Completar 25 anos provocou nela a percepção de que precisava arriscar mais, começar a se divertir antes que terminasse solitária e teimosa como todo o resto de sua família de sangue azul. Cobriu o  rosto com sua máscara de seda vermelha e proferiu um juramento:
— Que a caça comece.
Durante esta noite procuraria um homem para seduzir como se sua vida dependesse disso – mesmo que não fosse Eric. Além disso, Eric até podia ser atraente o suficiente para se infiltrar em seus sonhos com frequência, mas a sua mentalidade direto-ao-ponto de tubarão corporativo sem dúvida tornaria os dois incompatíveis para qualquer coisa além de um breve e faiscante encontro.
— Nunca perdi uma causa, nem uma aposta, até hoje.
As três juntas apertaram os mindinhos e deixaram escapar um gritinho juvenil que as remetia à época  do internato. Chloe saiu da tenda da vidente e se viu de volta ao baile de máscaras, com a voz de Glenda em seu rastro:
     Esteja preparada para turbulência e mudança…      Chloe fingiu não ouvir. Se fosse mesmo seguir adiante com a promessa de ser mais ousada, o que não queria pensar eram nas ondas de choque que poderiam resultar.
Cleópatra e Maria Antonieta se separaram – dividindo o salão em áreas de conquista de homens; deixaram a Dama de Copas a sua própria sorte. Chloe aspirou a mistura de perfumes
no salão de hotel lotado. Festões cor-de-rosa recobriam as paredes enquanto guirlandas de corações vermelhos de seda enfeitavam todo o resto, incluindo as luminárias, os balcões dos bares e as saias curtas das garçonetes.
Era um baile de formatura com  proporções  ao  pesadelo, felizmente ocupado por homens que  normalmente usam Armani em vez de smokings alugados. Chloe de fato não tinha aproveitado muito o seu próprio baile de formatura, considerando que passou metade da noite no banheiro, chorando sem parar, por conta do único rapaz por quem teve vontade de arriscar seu coração. Agora precisava ser diferente, e o olhar de Chloe esquadrinhava todos os possíveis candidatos abaixo dos 50 anos. Pensando bem, dos 45. Eliminou os  primeiros quinze  que espiou em  menos  de  10 segundos,  era  sua  mente  de  advogada trabalhando, acostumada a fazer julgamentos e analisar as pessoas com o olhar. Então, ao perceber que havia  eliminado  o  salão  inteiro  em  meia  hora,  Chloe  fechou  os  olhos  e  repreendeu-se, precisava ir mais devagar. Respirou fundo e novamente abriu os olhos.
E viu que Eric Matteo estava bem na sua frente.
O gladiador romano à sua direita poderia fazer Russell Crowe ter que rebolar para manter seu  posto.  Eric estava de pé como uma estátua de bronze, a uns cinco metros de distância dela, sem máscara. Será que a reconheceria com sua fantasia? Talvez sua máscara lhe permitisse o anonimato para finalmente ter aquele breve e faiscante encontro com o qual vinha sonhando... E sem precisar relembrar os momentos em que se confrontaram no tribunal nem o fato de Eric representar o mundo sangue-azul do qual ela vinha fugindo.
Graças  à  máscara,  Chloe  poderia  mostrar  a  Eric  um  outro  lado,  o  mais  ousado. Começaria agora.


Leia também o Capítulo Dois