sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Querendo em segredo - Quiel Guarânea

Ter um querer sem o escolher,
isso pode sim, e muito, acontecer.
Se amar e muito querer é viver,
porém, algo muito querer
e isso nunca pode ter
é, deveras, um terrível sofrer.
Assim, fragmentado no tufão
duma atração tão gigante pra razão,
sinto, parvo, saltitar meu incauto coração.
Eu-corpo, infinitamente à quem dela,
eu-pessoa, inçado no alçapão da ética,
forçado engolir a confissão que lhe quisera.

Pra mim digo com retumbância contida:
Céus! Ela é estrondosamente Linda;
Ela expressa uma cachoeira cristalina;
tão meiga e estupidamente bela,
ela, inocente, à mim se porta angélica,
causando-me apertado nó na goela.
Pasmo eu, diante de olhos tão topázios,
estremeço no deslumbre à rubros lábios,
e me curvo arrebentado ante sensual espetáculo.

Triturado no cás implacável da incompatibilidade,
recomponho-me teimoso e febril à sua beldade,
às vezes tão néscio à cruel e real impossibilidade.
Então, estúpido, me excito diante dela
e mergulho no mar alheio de sua beleza,
me afogando na imensidão desta realeza.

Por ela sou assim tão imbecilmente atraído,
mas apenas me desmancho em sofríveis pingos,
atrás dessa montanha de milhões de empecilhos.
Na pronúncia “alicerce” ouve-se o seu nome,
e nesta alvenaria esconde o segredo de um homem;
um homem diante de um fruto-ciclone,
o qual não só com alma se come
mas com o corpo saboreia o oposto do homem.

Quiel Guarânea