quarta-feira, 8 de junho de 2011

Desabafo de uma garota de quinze anos - Bianca Braga de Carvalho

Como é ingênuo esse nosso país. Somos vizinhos de pessoas que aprovam a construção de usinas hidrelétricas, sendo que isso afetará a fauna e flora da região do Rio Xingu, no Pará, para produzir energia elétrica suficiente para assistir uma população de aproximadamente 29 milhões de pessoas, quase o número de habitantes da região metropolitana de São Paulo.
Querem instalar usinas nucleares por todo o país, sendo que o risco de radioatividade e improdutividade do solo desnecessários é altíssimo. A população aprova novas usinas; a população aprova radioatividade. Esse é o nosso jeito brasileiro de ser. “Meu problema está resolvido”. “Eu tenho energia elétrica em casa”. 
A verdade é que no Brasil quem governa são os governantes, e os governantes são a população. Aqui, por que se deve investir em algo de longo prazo? Aqui, o que importa é o agora. Aqui, não existem alternativas. Aqui, o que importa é que eu tenha meu dinheirinho no final do mês. Quem são nossos governantes? Quem são eles, se a maior parte da população sequer escreve seu próprio nome? Quem são eles, se um número absurdo pessoas no país sequer estão registradas como cidadãos civis? 
O Brasil tem espaço de sobra para investir num tipo de energia específica: a eólica. Mas não se preocupam com o negócio, porque é retorno de longo prazo, e no momento é muito caro.
Explique, cara população brasileira, o que significa Copa do Mundo. O que é Jogos Olímpicos? Mas, tenho uma dúvida maior, Brasil. O que é apagão? E por que eu deveria me preocupar, se eu tenho meu gerador, se eu tenho meu carro movido à gasolina – que nunca falta -, se eu tenho a minha casa a vinte minutos de São Paulo? Que me importa?
E o que serão dos estrangeiros quando vierem para esse país de cana de açúcar procurar um lugar para se estabelecer, e alugarem uma favela, porque não tem hotel sobrando? E o que será da nossa imagem, quando o mundo souber que sequer temos espaço para uma construção para a Copa de 2014? E será que algo vai mudar nessa geração? Nossos jovens de agora votarão em 2014. Será que algum dia nosso governante federal será decente, ficha limpa? Ou é utópico? Ou está tudo bem? 
Graças ao poder superior do nosso Brasil, não vejo sequer um homem deitado nas ruas de São Paulo. Ou, agradeço, e presto homenagem ao nossos presidentes – tanto que lhes farei um filme como tributo -, que não vejo um homem passar fome, ou brigar por comida com um cão desdentado. Ou será que o homem é que era o cão desdentado?
Não vivo num país subdesenvolvido! Vivo no Brasil, o país de todos, um país Emergente, Subdesenvolvido Industrializado, com a economia em desenvolvimento, pois tratamos de ORDEM E PROGRESSO! Que exemplo excelente. Um país que há renda perfeitamente desenvolvida, há moradia e saneamento básico, há luz, há água...
Agora, cantemos com orgulho: “Gigante pela própria natureza”. A natureza que em breve será substituída por usinas nucleares e hidrelétricas desnecessárias. E, cantemos também, que “o teu futuro espelha essa grandeza”. Pois, daqui a somente quatro anos, podemos garantir que o trem bala, o estádio de futebol, as piscinas gigantes e tudo mais estarão prontos, AFINAL, “um filho teu não foge à luta” de organizar-se, de planejar, de construir tudo o que o nosso estruturado país de primeiro mundo requere.
No fim das contas, por que estou reclamando? Temos tudo o que precisamos.

Fonte: http://www.webartigos.com/articles/68020/1/Desabafo-de-uma-garota-de-quinze-anos/pagina1.html#postedcomment#ixzz1OgVv1EOX