quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Menina do Contêiner - Rute Oliveira

Era uma manhã de domingo e ela caminhava pela praia. Os raios de sol a iluminavam; a brisa do vento tocou sua pele e, por um instante, ela teve um encontro consigo mesma.
Sentia-se livre e ao mesmo tempo protegida pela imensidão do mar, protegida de um mal que até então ela não sabia explicar.
O pesadelo da noite anterior estava corroendo seu frágil coração, e, embora tivesse sido apenas um sonho, este parecia real.
Um mal imaginário que, na realidade, fez mal de verdade. Mas era apenas um sonho e nada mais.
Maria Antônia, na sua ingenuidade de criança e doçura de adolescente, sentia que o pesadelo poderia ser seu futuro real.
Os passos lentos e suaves foram interrompidos pelos gritos de seu irmão, gritos que com voracidade ecoavam seu nome.
Antes de virar-se para trás, ela fechou os olhos, despediu-se em silêncio do mar e da sua imensidão. Só depois desse ato é que respondeu ao irmão; ele estava ofegante e logo foi lhe dizendo que o resultado de seu exame havia saído, seus pais e algumas pessoas esquisitas a aguardavam em casa.
Calada e em passos lentos, seguiu o irmão até sua casa.
Antes de abrir a boca, colocaram sobre ela uma roupa branca e a forçaram a sair de casa e a entrar em um carro, que continha uma caixa. Dentro dessa caixa uma cama dura; tudo era branco e apenas por um buraco podia-se avistar o mundo lá fora. Ela pôde observar o choro de seus pais, um choro silencioso, mas só ela conseguia sentir a dor que eles estavam sentindo, pôde também ouvir os gritos do pequeno Ivo seu irmão; gritos que pareciam ter sido abafados com a frieza daquele local.
Maria Antônia dentro do contêiner, nada podia fazer. Ela estava em pedaços Por dentro. A terrível coincidência é que naquele instante, era a mesma dor que sentira na noite anterior, em sonho.
Pelo pequeno buraco ela via sua casa e seus familiares, pouco a pouco se afastando. Só então suas lágrimas caíram, manchando sua roupa branca como a cor da neve, ela havia visto na televisão um dia.
O mar estava desaparecendo, pouco a pouco de sua visão, mas ela não conseguia afastar os olhos. Finalmente o mar desapareceu.
As pessoas conversavam dentro do carro, conversavam baixinho; ela se sentia como um bicho inofensivo aos olhos de si própria, mas não aos olhos de todos...
Os momentos passavam até que ela adormeceu, mas foi despertada pelo impacto do contêiner ao tocar o chão.
Ela conseguia avistar pelo pequeno buraco os prédios que estavam ao seu redor; sonhos eram reavivados ainda que por um instante.
Podia-se perceber que a caixa se movimentava
Deram-lhe bolachas de água e sal e um suco horrível, mas foi obrigada a aquietar-se.
Sentiu-se então como um cãozinho vira-lata, mas assim como tal foi obrigada a aquietar-se.
Depois de um tempo, a caixa foi aberta e uma luz forte incomodou seus frágeis olhos.
Pessoas vestidas de branco, que ela apenas podia ver os olhos, colocaram-na em uma cama, que passava por debaixo de um aparelho que lhe provocava sensações estranhas.
Em silêncio ela ali foi colocada e depois retirada, voltando para sua indesejável moradia;
Na caixa, inquieta, ela tinha apenas o buraco como seu amigo, apenas ele lhe dava forças para, ainda assim, trancada em uma caixa e tratada como um bicho estranho, sentir-se humana, pois pelo buraco, observava o mundo, e assim, ainda conseguia sonhar.
Assim, a menina acabou adormecendo. Conseguia ouvir gritos de pessoas repetidamente: Matem-na, matem-na.
Do lado de dentro, ela nada entendia, apenas sofria, enquanto uma revolução quase se estendia do lado de fora.
Lá fora a mídia e cientistas do mundo todo, presentes na ocasião, explicavam e tentavam entender a real situação.
Uma menina com um veneno capaz de infectar a humanidade com uma simples respiração.
Maria Antônia carregava dentro de si um veneno, uma radiação que, se despertada, apenas com sua respiração era capaz de infectar e matar outro ser humano.
A mídia informava que em poucos instantes ela seria transferida para o exterior, onde seriam realizados exames específicos que a levariam, ou não, á morte.
Novamente M.Antônia sentiu a caixa mover-se, dessa vez ela parecia estar levitando, seu coração batia forte. Pelo buraco ela pôde observar o chão lá de cima, dentro do avião, o mesmo com que um dia ela sonhava viajar quando pequenina.
Este mesmo a levaria até seu destino. Depois de um longo tempo, pode sentir de novo a caixa mover-se.
Outra vez estava ela em um lugar belo, cheio de luzes e prédios altos.
Ela, que sempre sonhara com cidades grandes, prédios, viagens de avião, agora estava jurando a si mesma nunca mais afastar-se do mar, e só tinha um pedido a fazer: queria sentir a brisa do mar, o cheiro de areia, nem que fosse pela ultima vez.
O seu coração pulsava um misto de emoções.
Pessoas gritavam em uma língua que ela não entendia. Era ela o motivo da discussão. Só naquele instante ela conseguia ter uma dolorosa noção do que estava acontecendo, e então despediu-se de si mesma, com um fechar de olhos.
A menina do contêiner sofria seu final calada. Dentro de seus pulmões, o temido veneno que poderia matar a humanidade com uma simples respiração.
Pelo buraco, outra vez, M.Antônia avistou a luz forte, só que dessa vez, vindo em sua direção. Ela foi tirada da caixa por pessoas estranhas, com olhos humanos e colocada em uma mesa. Sua pele sentiu uma formiguinha lhe picar, então fechou os olhos e sentiu a brisa do mar.
A menina do contêiner, com seu coração puro e pulmões envenenados adormeceu, da mesma maneira que nasceu: condenada a morrer e não mais matar.


A Menina do Contênier - Rute Oliveira.
Texto submetido a Editora Guemanisse
http://rutioliveira.blogspot.com/