quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Bom - Assombro - Rayo Francis

Eu nunca gostei de casas mal-assombradas...

A bem da verdade, como sou um neurótico perfeccionista, fica muito difícil admitir que algo possa ser mau feito, de propósito ou por um mero descaso amadorístico e infantil...

Penso convicto e muito claramente que, se uma casa precisa ser assombrada, tem que ser muito bem assombrada, e fim de papo.

Ah, mas com você foi diferente: você agiu como uma perfeita profissional! Quando você se foi e levou com você tudo o que era tangível, afirmando que havia morrido para mim, eu apenas sorri, confiante, acreditando que aquilo não passava de mais um mero mal-assombro, daqueles que logo se conserta com um simples pedido de desculpas e arrependimentos...

No entanto, talvez como num último agrado pessoal, sabendo que adoro atitudes profissionais, você fez questão de esquecer aqui um amontoado de sonhos, planos, gemidos e marcas nos lençóis... Deixou um gigantesco buraco abarrotado até a boca de saudades! Cada esquina da casa, cada curva de um cômodo, cada centímetro do azulejo, tem seu cheiro, traz o reflexo de seu vulto, martirizando minha cabeça, moendo minhas entranhas, assombrando minha alma...!

Você sim, fez direito. Parabéns. Você tornou minha casa e minha vida muito bem-assombrada...! Na verdade, tudo a minha volta virou um inferno depois que você passou e algemou em mim o seu bom assombro...!
 
O Bom-Assombro
Texto: Rayo Francis© Copyright 2010
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