segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tia Dorina,Parte II - Bruno de Faria

Tia Dorina tem responsabilidades graves na família. Poucas pessoas gostam de Tia Dorina. Ela, junto com
minha avó que faleceu de pneumonia bem há pouco, foram responsáveis por boa parte de todos os desentendimentos
entre todos, se não rigorosamente por todos. E eram desprovidas de escrúpulos. As duas possuíam uma habilidade
duofacetária de estabelecer um disse-me-disse que, em poucos minutos, se espalhava por toda a gigantesca família de
doze irmãos, trinta e seis sobrinhos e cento e doze netos, fora os sobrinhos-netos. Depois que todos se inimizavam
acreditando nos “disses” de uns e nos “me-disses” de outros, criando um cenário de ódio e desconfiança
generalizados, elas novamente entravam em cena como grandes apaziguadoras. Ô safadas. As pessoas, sabe-se lá por
que falha de julgamento, acreditavam no resultado final, no qual as duas desejavam apenas fazer reinar o bem-estar da
família e muito contribuíam para isto.
Eu rompi com isto aos quinze anos. Mais precisamente no dia do meu aniversário de quinze anos. Neste dia
minha mãe insistiu em me fazer um bolo e centenas de brigadeiros, o que eu detestava (não os brigadeiros, mas a cena
dela os enrolando e reclamando do trabalho que dava, embora estivesse determinada a terminar), e convidar algumas
primas e tias-avós, além de minha madrinha de batismo e minhas avós. Seguramente eram convidadas apenas as
pessoas que certamente me dariam algum presente em dinheiro e que passariam a tarde inteira tagarelando e
gargalhando numa espécie de conspiração contra o resto da família que não estivesse presente para se defender, ou
confrontar. Era um nojo quando as piores víboras da família (justamente as convidadas!) se reuniam, geralmente na
casa de minha avó, comentando as roupas, as vozes, os gestos, rindo do infortúnio dos ausentes, dos casamentos
desfeitos, da feiura dos genros. A tônica era sempre a aversão à figura do homem. Sim, elas aparentavam ser todas
muito inimigas do sexo masculino.
Tia Dorina foi a primeira a chegar, como sempre, por ansiedade e por morar muito perto. Tia Dorina gostava
de acompanhar o circo todo, desde a compra dos bilhetes, passando pelos trapezistas quase suicidas e pelos ridículos
palhaços, até o grande incêndio final. Morava a uma quadra de nós e tinha uma empregada que lhe trocava até os
absorventes íntimos. Nunca trabalhou na vida. Nunca fez rigorosamente nada a não ser comprar bijuterias. Seu ex-
marido, conhecido contraventor da zona sul carioca, era também reformado pelo exército como incapaz (embora fosse
de todo capaz), e dava-lhe metade do soldo como acordo de desquite. Uma das distrações de minha mãe era falar da
vida sexual de tia Dorina, que tinha um amante no andar de cima, casado com outra, legítima, e que bastava um
estuque com o cabo de vassoura no teto do quarto para que ele descesse as escadas e mandasse brasa nela. Outra
distração era falar da inutilidade de tia Dorina, seu sedentarismo, sua futilidade manifestada nas suas coleções de
sabonetes envoltos com malhas de crochê, dezenas de águas de colônia, brincos e anéis vagabundos.
Mas fugi muito do assunto, desculpem-me: tia Dorina foi a primeira a chegar. Não me deu nada de presente.
Sentou-se no sofá e puseram-se, minha mãe e ela, a falar mal de minha avó e de minha madrinha. Ouvi-las falar mal
das pessoas era divertido, afinal eu estava em plena fase de absorção e queria aprender a conviver e a conversar. Pena
que o exemplo que eu tinha era aquele, o de um bando de endemoniadas sempre furiosamente dispostas a difamar e
blasfemar contra os outros.
Em seguida chegaram minha avó e minha dinda. Minha mãe e tia Dorina ficaram um tempo com aquela cara
de quem peidou na igreja ou dentro do elevador lotado, aquela cara de idiota que todos nós fazemos quando estamos
falando mal de quem que, em seguida, aparece na nossa frente, num súbito incapacitante, sem que tenhamos tempo de
nos recuperar do próprio veneno; mas habilidosamente elas recuperaram a naturalidade. E, agora em grupo de quatro
mulheres, puseram-se a falar mal de Nádia.
Nádia foi a que chegou em seguida. Nádia era a puta assumida da família. Orgulhava-se em dizer que só não
arranjava um homem pra conhecer sua cama quando decidia sair nas ruas olhando para o chão. Era uma mulher com
cara mesmo de sexo, e que pintava os cabelos com um tom de louro que só existe nos albinos, o que realçava uma
mancha avermelhada que tinha no canto esquerdo da boca. A voz de Nádia era detestável: uma voz miada, lasciva
como sempre estivesse fingindo orgasmo. E talvez esta voz fizesse parte do personagem proposital. Seu modo de
seduzir os homens na rua era particularmente interessante: ela se aproximava deles e dizia que eles tinham “cara” de
que gostavam de arte. Em seguida à receptividade, ela dizia que tinha um Debret em casa (e tinha mesmo, na parede
sobre seu criado mudo – ainda bem que mudo). Então perguntava ao homem já fisgado se ele gostaria de conhecer seu
Debret. E o homem ia conhecer... o “Debret” de Nádia. Era assim. Um respeitável talento para o acasalamento. Nádia
abriu a carteira discretamente, assim que entrou sala adentro, ao lado do piano, e me estendeu uma nota de cem
cruzeiros, a nota de maior valor naquela época. Minha mãe, sempre cobiçando, mandou-me logo esconder o dinheiro
no quarto, afirmando que mais tarde se concentraria comigo para decidir a melhor forma de gastá-lo. Pura cobiça.
Cumpri a ordem, guardando o dinheiro na gaveta central de minha escrivaninha, voltando para a sala.
As cinco mulheres então se puseram a falar mal de minha avó paterna que estava para chegar. Falar mal de
minha avó era o prato cheio de minha mãe. Afinal, era sua sogra. Em todas as reuniões de família ela dava um jeito de
inserir maledicências sobre minha avó nas conversas. Isto estimulava as demais, e o assunto passava a ser uma grande
desova generalizada e comparativa de maledicências sobre as sogras de cada uma. Competiam para ver quem teria a
pior experiência com a respectiva sogra, a que falava mais, a que se metia mais no casamento da nora. Curioso era
que, já naquela época, eu percebia o quanto havia de mentira nas verves daquelas mulheres. Talvez por saber que era
lorota pelo menos oitenta por cento de tudo que minha mãe falava sobre minha avó, eu dava um desconto também no
que as outras falavam. E as considerava notáveis discípulas de Lúcifer. Infelizmente, devido a isto, criei nos meus
arquivos uma idéia de que mulher talvez não fosse bicho de se confiar.
Minha avó paterna, a sogra, a bola da vez, foi a que chegou por último. E quando ela tocou a campainha, fez-
se um enorme silêncio de surpresa que ninguém conseguiu naturalmente passar a falar sobre a morte da bezerra. As
testas de todas, os olhares perdidos, denunciavam que coisa boa não estariam falando, e minha avó entrou na sala com
o ar aristocrático inabalável que tinha, sempre sabendo de tudo mas fingindo não perceber nada. Não que minha avó
paterna fosse santa. Ao contrário, era bem chegada aos endemoniamentos tal como as outras, mas nunca, nunca
mesmo, pude considerar as pequenas maldadezinhas de minha avó graves como as maldades das mulheres da minha
ascendência materna.
Ela entrou, beijou-me e desejou feliz aniversário. Abriu a bolsa e tirou de dentro dela um pacote com um
baralho de plástico Kem, sonho de consumo meu naquele momento da vida. Depois pediu licença, sentou-se e
posicionou a bolsa ao seu lado no sofá. Ficou olhando para as outras com fingimento de naturalidade, fitando rosto a
rosto, o que sabia fazer como ninguém, e com aquela cara de “e agora, o que conversaremos?”. E como as demais
estavam totalmente paralisadas diante de terem sido surpreendidas sem inteligência e improviso suficientes para
transmutar o assunto cruel na simples morte da bezerra, puseram-se a me bombardear. Minha tia Dorina foi a
primeira, como sempre, a pioneira:
- Você agradeceu à sua avó o presente que ela lhe deu?
- Claro que sim.
- Não vi você agradecer. - ela arrematou, por falta de assunto.
- Agradeci sim.
Eu, que estava sentado no braço da poltrona onde minha madrinha estava, abaixei meu rosto e fiquei
olhando para o carpete cinza, desejoso de que o tempo voasse como um falcão e todos aqueles discípulos do inferno
saíssem da minha casa.
Tia Dorina, ainda sem imaginação sobre o que conversar, insistiu:
- Mas nós aqui não vimos você agradecendo à sua avó!
- Agradeci sim, claro que agradeci, não foi, vó?
- Agradeceu. - foi o que minha avó fez, abreviadamente e balançando a cabeça afirmativa e lentamente, olhando para
todos a fim de terminar aquele assunto. Seu rosto era pragmático, grave e enojado.
Mas não conseguiu. Tia Dorina, num rompante inexplicável de sadismo, resolveu me obrigar a agradecer
novamente à minha avó “na frente de todos”, para que fossem testemunhas de que eu realmente havia agradecido o
presente. Eu, como era de se esperar, comecei a chorar. Fui ao banheiro e lá me tranquei, molhei o rosto, vomitei em
seguida, fiz um pipi sentado, fantasiando em como envenenar todas aquelas mulheres com cianureto de potássio, caso
o possuísse. Recuperei-me, sequei as últimas lágrimas dos meus quatorze anos na toalha. Fui à sala; parei em frente a
- Atenção - todas olharam, ainda impactadas com a presença de minha avó paterna – Vocês estão me vendo e me
ouvindo?
- Estamos. - apenas tia Dorina respondeu.
- Pois olhem bem meu rosto; ouçam bem minha voz. Guardem bem na cabeça. Pois é a última vez que vocês me
Saí, fui para o meu quarto. Tranquei-me lá e não ouve toctoc insistente de mãe ou avó que me fizessem abrir
a porta. Só saí quando certamente a casa não tinha mais nenhum inimigo. Obviamente a situação foi apenas o motivo
maior para eu tomar esta decisão. Muito aconteceu antes. Muito assédio moral, humilhações públicas, maledicências
que atingiram direta e definitivamente a formação de meu caráter, definindo meu modo de ser e de agir, especialmente
em relação às mulheres.
Estou com mais de 40 anos. Não sei como tia Dorina ficou depois de velha. Não sei se aquelas mulheres
todas deixaram de maldizer e de semear discórdia. Nem lhes dei chance. Nem me arrependo, tampouco. Na verdade
nem sei se ainda está viva neste exato momento a tia Dorina, pois afirmei ontem que não faço questão de saber
notícias de pessoas que não existem a não ser em forma de fantasmas. Nunca fui nem aos enterros de familiares, nem
mesmo ao enterro de minha avó. E olhem que morreu muita gente, já. Jurei e cumpri, que ninguém na família de
minha mãe jamais me veria novamente.
Literalmente tirei meu corpo fora. Já meu espírito, este passou a vigorar de modo totalmente distinto do que
eu planejei. Mas o resultado foi adequado, digamos assim. Dorina.

Bruno de Faria é escritor e médico.Suas obras estão disponíveis para leitura em