quarta-feira, 21 de julho de 2010

Autor: Bruno de Faria


BRUNO DE FARIA

Bruno nasceu no Rio de Janeiro em 1968 .
Formado em Medicina e Teatro ,já escreveu 15 peças e diversos esquetes cômicos para teatro,tendo duas de suas peças ,"Leve três,Pague dois" e "Três Velhinhas e um Sequestro",em cartaz no Rio entre 2000 e 2002.
Posteriormente passou a escrever contos e ensaios.
Suas obras possuem características existencialistas do cotidiano,alguns toques autobiográficos e uma pitada de humor negro.
A seguir,o ensaio do autor para o deleite dos leitores.






Vó com Açúcar

"Eu tive uma avó que morreu louca. Se bem que minhas tias-avós e minhas tias diziam que ela havia já nascido louca. Minha visão de menino, de menino adolescente e até mesmo de adulto não era esta: eu a percebi, a ouvi e vi enlouquecer. Ou talvez tenha enlouquecido junto, num processo conhecido como folie à deux. Mas acho que não. Eu entendia seus motivos para tal, apenas não concordava com o modo como ela lidava com suas adversidades, seus poréns e circunstâncias. Ela tinha uma tal característica de matar um pouco de si e a boa parte dos mais próximos, em acordo com o que julgava ser sua única solução para a sobrevivência. Assim todos morriam, um pouco, a cada dia, até que chegou o derradeiro momento no qual ela se viu sozinha, e que cada qual foi exercer sua loucura um pouco distante dela na tentativa de enlouquecer ao menos de modo diferente. Menos suicida, menos traumático, menos fatal.

Esta minha avó era uma mulher pequena de metro e meio e muito, morbidamente gorda. Feia, de nariz largo e narinas abertas, pele muito branca e cabelos ralos, tingidos de escuro até seus oitenta anos, quando os deixou definitivamente brancos. Usava vestidos largos e compridos de tecido estampado que ela mesmo confeccionava. Tinha uma habilidade culinária invejável, primordialmente de pratos salgados, salgadinhos e farofas. Eu era capaz de abandonar meu prato de comida na minha casa, o que deixava minha mãe completamente indignada, para ir a casa dela comer bolinhos de arroz, ou de vagem, ou rissoles de carne moída. Era uma pessoa desesperada, arregalada, com olhar perdido e, ao mesmo tempo, sempre à procura de algo. Tinha um cacoete com os 3 últimos dedos da mão direita, e os esfregava como quem roda uma aliança. O cacoete era sempre muito evidente pois sua mão estava sempre apoiada no braço do sofá.

Esta minha avó tinha uma necessidade de domínio, de demonstração de poder mas, sobretudo, de obter prazer maltratando os outros, preferentemente em público. Ou melhor, com platéia. As cenas, geralmente sem motivos capitais, continham um misto de constrangimento, humilhação, olhos arregalados, ameaça, verdadeiras decepções definitivas para filhos, netos. Minha irmã rompeu cedo com este tipo de relação sado-masoquista: ela sempre foi bem menos submissa do que eu. Aos quinze anos ela simplesmente chegou em casa e disse de público: “nunca mais vou na casa da vovó” – e nunca mais foi, mesmo. Eu não. Meu defeito era o de testar até que ponto eu era capaz de suportar sofrimento sem morrer de fato. Tinha uma particular dificuldade de inventar esperança, de cegar-me para o pior que as pessoas possuíssem no caráter e, em contrapartida, exacerbar de importância o que tivessem de bom, mesmo que mínimo desprezível fosse. E vovó era assim: uma mulher louca, sádica, especialista em matar e morrer, mas que tinha qualidades notáveis. Eu pagava com sofrimento moral o usufruto de seus bolinhos de arroz, suas estórias que sempre continham muita História, seu ouvido para meus desabafos tão mal-fundamentados, ou de inabilidade de enfrentamento da vida.

Vovó era uma mulher tão aparentemente forte, tão belicosa, tão dona da verdade que todos nós tínhamos a impressão de que íamos morrer antes dela. Ela era tão demonstrativa de força que parecia ser imortal. Mas com a mesma força que ela transformava a família em um fogo cruzado devido às suas maledicências e manipulações de informações de uns sobre os outros, ela conseguia atrair para si a confiabilidade máxima e enganada de todos nós. Todos nós sabíamos que podíamos confiar nela, mesmo tendo a certeza de que ela, em menos de um dia, usaria nossas conversas a seu modo, seja para que nós nos desentendêssemos, seja para puro exibicionismo dela. E definitivamente, com uma força dissimuladamente acanhada, ela entrava em cena novamente quando todos estavam se digladiando, desta vez como uma grande apaziguadora, e triunfava. Assim, por décadas, ela se alimentou de nossas fraquezas, de nossas indecisões e incapacidades relacionamentais. O resultado foi o óbvio: ela sozinha na casa dela e cada célula de nossa família em sua casa, minimamente com um filho ou um marido, ou sem mesmo marido ou esposa, pois todos, rigorosamente todos se separaram e jamais se entenderam novamente, ficando cada um sozinho em um pequeno apartamento e pior: sem crença nenhuma mais; sem iniciativa, sem qualquer indício de desejo de retornar a um relacionamento saudável ou apenas respeitoso que fosse, entre nós. Seria comparável a uma granada que explodiu: cada fragmento foi alojar-se ou perdeu-se num canto qualquer, ficando localizável apenas o pino que lhe foi retirado.

Vovó finalmente morreu de uma morte doída e abandonada."


Ficou um gostinho de quero mais?

Acesse a página do Autor e bom divertimento.

http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=76789